
Wilson Sukorski – Pontos Altos da Carreira
Música Pessoal (XIX Bienal Internacional de São Paulo)
Histórico:
Em 84 fundamos – eu, Mário Ramiro e José Wagner Garcia – o NAT Núcleo de Arte e Tecnologia, num escritório na Rua Estela, no Centro Empresarial, com supervisão do Prof. Dr. Frederic Michael Litto (ECA/USP) e patrocínio do CNPq. O NAT foi responsável por várias produções como meu livro ‘SMED Sistema de Música Eletrônica Digital‘ (Prêmio FUNARTE/83) que incluía as principais idéias sobre síntese digital (baseadas no 4X de Giuseppe Di Giugno), um sistema de espacialização sonora programável (que montei com Eduardo da Silva Prado da Poli, uma versão em hardware que tenho até hoje), um sequenciador e, principalmente, um inusitado e complexo sistema de sensores.
A idéia poética por trás da sensorização vinha do fato de que a realidade é composta por um continum de energias conhecidas, como o campo eletromagnético (do qual só percebemos uma pequena parte, a luz visível) e outras que podem ser acessadas por nossos sentidos (audição, olfato, visão, tato, gustação), mas também por uma infinidade de outras energias e vibrações energéticas situadas totalmente fora da nossa banda de percepção – são os invisíveis, os inaudíveis, os ainda-não-percebidos, os paradoxais… Estas energias, mesmo que preconizados em diversas culturas – continuavam fora da banda. Estes vastos espaços não podiam, pensava eu, pertencer apenas ao campo da Ciência. A Arte poderia e deveria contribuir para a sua colonização sensorial. Como?
Através do que eu chamava poéticas naturais : sistemas complexos de síntese e transformação sonoros comandados pelas energias invisíveis da realidade. Uma transdução/transmutação do oculto para o sensível. Assim os sensores abririam todo um novo campo de possibilidades tanto como estensores dos nossos sentidos tradicionais, como formadores de novos sentidos e intuições artificiais. Ampliando nosso campo de percepção – mas não como o telescópio, o microscópio, ou o radiotelescópio – sim ele também um super sensor – fizeram anteriormente. Numa clave mais perto de uma nova camada cerebral sendo acrescentada às normais (reptílico, límbico e neocórtex) este sim capaz de interpretar estes novos dados da realidade. Essa era a essência do SMED.
Ainda com o NAT realizamos vários outros projetos de Arte e Tecnologia e Sky Art, i.e, a utilização de satélites e das telecomunicações como suporte artístico num momento muito pré internet – entre eles : a TeleImprovisação (Mário Ramiro / Wilson Sukorski) com meu grupo de improvisação oTaoDoMinf (Prêmio Sérgio Motta de Arte e Tecnologia) separados em 3 subgrupos em locais diferentes (estúdio da TV Cultura, Teatro Franco Zampari e meu apartamento na Rua Augusta via microondas) tocando a Teleimprovisação (a abolição do espaço) ao vivo dentro do programa EUREKA! comandado por ninguém menos que o artista Guto Lacaz!
Ou a ópera multimídia Projeto para uma Revolução em New York – (Mário Ramiro / Wilson Sukorski) baseada no livro homônimo de Alain Robbe-Grillet – que também conheci pessoalmente anos mais tarde – com projeções em filmes super 8 produzidos para o evento – estávamos em 84 – esculturas de luz, recortes em madeira, sombras, performance corporal, teatral, textos em off e lindas mulheres semi vestidas. Apresentado pela primeira vez na inauguração das Oficinas Culturais 3 Rios, hoje Oswald de Andrade.
Ou ainda o evento PTYX (José Wagner Garcia / Wilson Sukorski) onde uma taça de cristal era “telekinetizada“ (movida a distância) pela voz de Vania Bastos – transmitida por linha telefônica do recém inaugurado Centro Cultural São Paulo para a Galeria Paulo Figueiredo nos Jardins – lá a taça cercada de auto falantes entrava em vibração por simpatia e levemente escorregava pela mesa caindo ao chão !
Ou ainda o STP7 (Wilson Sukorski / Mário Ramiro) evento para palco automático com 2 ventiladores industriais de 80 km/h fazendo as pesadas cortinas do Auditório do MASP literalmente dançarem, luz química, fumaça colorida e esculturas incandescentes, durante o Festival de Música Nova de 1985.
Ou O Médium das Mídias (José Wagner Garcia / Wilson Sukorski) uma campanha publicitária sem produto, onde cada mídia falava de si própria – para: rádio (micro radionovela), spot e comercial de TV, outdoors espalhados pela cidade, anúncio na revista Veja + acesso por telefone (imagem e som de UFO passando por uma praia), foto levitação no O Planeta Diário revista do grupo humorístico Casseta & Planeta, holografia-história-em-quadrinhos (com Moisés Baumstein).
Foi neste cenário ou framework conceitual que acabei compondo a peça MEL V. Uma mistura das minhas principais preocupações estéticas na época. Estão presentes: o espectro eletromagnético – onde ocorrem as explosões; a idéia já bem definida do que seria mais tarde chamado de tradução intersemiótica (Julio Plaza/92); o elemento natural – instrumento acústico – para contracenar musicalmente com o eletrônico mais puro e portador do sinal principal; o gesto musical e o paradoxo das explosões solares (solar flares) – afinal, a origem de tudo – que acontecem no mais absoluto silêncio do espaço.
por Wilson Sukorski.
MEL V (1979-84)
MEL V – Música eletroacústica composta por explosões solares (solar flares) captadas pelo Rádio-Observatório Pierre Kauffman em Atibaia – SP. Com uma antena de 13.7 metros é dedicado quase exclusivamente aos estudos do Sol. Opera entre 22 e 48 Ghz. A estratégia foi ‘transpor‘ os sinais que acontecem no campo eletromagnético – do qual o som não faz parte – para frequências audíveis. O programa foi escrito, se não me engano, em FORTRAN, pelo jovem William Villas Boas.
A música é montada com estes sons ‘puros‘ superpostos em diversas maneiras e camadas, variações destes sinais em sintetizador analogico (Roland System 100), instrumento inventado de 7 cordas com 2,30 mts de comprimento ‘afinado‘ nas frequências dos sons puros. Foi montada em versão estéreo em 1984 no Estúdio da Glória, Rio de Janeiro cedido gentil e gratuitamente para o projeto.
PRNY – Projeto para uma revolução em New York
Baseado no romance ‘Projeto para uma Revolução em New York‘ de Alain Robbe-Grillet foi composta para a inauguração das Oficinas Culturais Oswald de Andrade, ex Três Rios em 89. Um teatro musical com duração de 80 minutos.
Para música eletrônica ao vivo, 6 performers femininas, 2 masculinos, teatro de sombras, manequins, recortes móveis em madeira, Gran Cordas, etc… Direção Cênica : Mario Ramiro. Figurino: Nina Moraes. Performers: Ilana Marion (noiva), Kátia Cipris (Sarah), Lali Krotoszynski (Laura), Nora Jorge (o tempo), Rute Cardoso (Joan), Mário Ramiro (Ben Said), Wilson Sukroski (Dr.Morgan).
T1 – As Razões da Revolução : Os três atores usam sobretudos sombrios severos, camisa impecável e gravata listrada… O tema da lição do dia parece ser a “cor vermelha”, encarada como solução radical ao irredutível antagonismo entre o negro e o branco. As três vozes são destinadas agora a uma das maiores ações libertadoras se referindo ao vermelho : a violação, o incêndio, a morte… O desenvolvimento preliminar , devia ser consagrado às justificativas teóricas do crime em geral e à noção do ato metafórico… O raciocínio que assemelha a violação à cor vermelha, no caso em que a vítima já tenha perdido a virgindade, é de caráter puramente subjetivo… Mas os três atores voltam ao segundo ponto do tríptico, isto é, ao assassinato : e a demonstração pode desta vez, ficar sobre um plano perfeitamente objetivo com base no sangue derramado, com a condição, todavia, de limitar-se aos métodos que provocam hemorragia abundante. Ele é abandonado logo em seguida pelo terceiro quadro, que apela para a cor tradicional das chamas, da qual se aproximará ao máximo servindo-se de gasolina para tocar fogo…E agora é em coro, recitando em conjunto o mesmo texto todos os três, na mesma voz neutra e desagradável, sem que nenhuma sílaba fosse pulada, que dão conclusão à exposição : o crime perfeito, que combina os três elementos estudados aqui, seria a defloração operada à força numa garota virgem, escolhida de preferência com a pele leitosa e os cabelos muito louros. A vítima ensanguentada devia ser queimada, para terminar numa fogueira regada à petróleo, incendiando pouco a pouco toda a casa… pp. 23



Música Pessoal (IA) – XIX Bienal Internacional de SP
Música Pessoal Idealizado a partir de uma idéia de Wilson Sukorski : a de criar um ambiente separado, numa cabine sonora – onde dois sistemas inteligentes – homem e máquina – pudessem ter um contato pessoal e desta relação única gerar música também única e pessoal, que poderia ser gravada (em fita K7) e o computador gravaria sua cópia em HD. Assim o exato momento em horas/minutos/segundos do encontro era determinante pois gerava a a forma final da composição. O dia útil da Bienal (14 às 22 hrs) foi então dividido por mim em 72 partes irregulares. Cada uma remetendo a uma forma, ou fôrma. Após o contato o humano era instado a dizer : nome ou apelido, idade e sexo (com a opção outros inclusa) – a partir dos dados o programa gerava 5 perguntas : algumas de caráter pessoal e outras mais conceituais. Cada pergunta tinha em média 7 respostas muito diferentes – indo do humor debochado ao cinismo, incluindo tédio. Cada resposta era determinante para geração – por diversos algoritmos aleatórios, das notas e frases musicais. Ainda controlavam o módulo de transformações MIDI : transposições, retrogradações, inversões, etc. Indo de uma graduação de 0 a 100 entre – originalidade e imitação. A música única era gerada e tocada a partir de um sintetizador TX77. Havia um aviso que a pessoa poderia gravar em fita, além de um facilitador – pois os computadores não eram populares em 1987 !!
O projeto foi realizado pelo Grupo TrioLosCuatro, no CTI Centro Tecnológico para a Informática, formado por Mamede Lima Marques, Paulo Gomide Cohn, Walter Carnieli e Wilson Sukorski para a XIX Bienal Internacional de São Paulo de 2 de Outubro a 13 de Dezembro de 1987, no Pavilhão da Bienal no Parque Ibirapuera em São Paulo.
Considerado o primeiro projeto de composição automática a utilizar recursos de Inteligência Artificial (expert system) por estas bandas, o Música Pessoal teve enorme repercussão e foi visitado por mais de 2000 pessoas durante seus 72 dias de apresentação. Às quartas feiras o projeto também atendia por telefone através de uma linha especial instalada na cabine. O que era um ‘hype‘.
Das muitas visitas que realizei no MIT uma das mais inesquecíveis foi o contato que tive com o grande pensador, matemático, pai da Inteligência Artificial e prêmio Nobel – Marvin Minsky, na época muito interessado nas relações entre música e inteligência artificial. Eu vinha desenvolvendo o projeto “UNDERGARDEN” onde várias formas de ciclos naturais eram usados para a geração e manipulação de sons. Automatismos naturais, isto é, as forças da natureza utilizadas como controle de instrumentos musicais mais ou menos eletrônicos, numa instalação de Arte Pública. De volta a São Paulo, fui convidado a participar de uma mesa redonda de discussão durante o I Simpósio Brasileiro de Inteligência Artificial, realizado no Instituto Militar de Engenharia no Rio de Janeiro. Nesta ocasião, meu colega de mesa era o matemático Walter Carnielli, então orientador do grupo de Inteligência Artificial do CTI – Centro Tecnológico para a Informática de Campinas, também ligado ao setor militar. Walter me convidou a participar do Grupo de Sistemas Especialistas (expert systems) do CTI. Meu interesse era a criação de um sistema de composição automática controlado por sensores, derivados de minhas pesquisas realizadas para a FUNARTE em 83 : SMED Sistema de Música Eletrônica Digital. Após uma reunião com o grupo, formatei a idéia do projeto Música Pessoal, que foi apresentado por mim para a curadora de música da 19a. Bienal Internacional de São Paulo, Ana Maria Kieffer.


Sistema de Composição Automático Fractal (IA) – XX Bienal Internacional de SP
Projeto realizados para a 20a. Bienal Internacional de São Paulo, ao grupo do CTI agora chefiado por Artemis Moroni, foi convidado pelo querido João Candido Galvão, desta vez para lidar com fractais.
Eu e Paulo Gomide Cohn, cuidaríamos da parte musical do projeto e resolvemos investigar mais a fundo as pesquisas e implementações já existentes no terreno da música fractal. O que encontramos foi o trabalho de Charles Dodge “Fractals and Music” no Computer Music Journal. Neste artigo ele descreve a implementação de um algoritmo fractal dos mais simples : o floco de neve (snow flake). A relação do algoritmo com a música se dá de forma direta : ao escalamento corresponde a divisão da duração das notas, a similaridade com a pura e simples transposição de frequências, e a ocupação do espaço com a densidade dos eventos musicais no eixo do tempo.
Lendo o livro de Benoit Mandelbrot “Fractal Geometry of Nature‘ descobrimos várias espécies de fractais diferentes e resolvemos implementar outros tipos menos comuns e fáceis. Formatamos 25 algoritmos diferentes cada um deles com mais de uma versão. Por exemplo o fractal conhecido com Poeira de Cantor.
Um acorde com quatro notas seguido por um acorde com 2 notas e mais um acorde de 4 notas. Uma região em silêncio, seguido por um acorde de 2 notas, uma nota solo e mais um acorde de 2 notas; novamente um acorde com quatro notas, um acorde com 2 notas e um acorde final com 4 notas. E assim por diante.

Contrariamente ao sistema Música Pessoal, desta fez por termos a nossa disposição uma maior capacidade de computação e um sintetizador MIDI mais poderoso, pudemos trabalhar com até 8 timbres diferentes simultaneamente num total de até 64 vozes polifônicas. Este fato, a diversidade, tornou a música do sistema muito mais agradável e rica. Pude também, pela primeira vez passados mais de 8 anos após o SMED, realizar uma experiência com sensores. Para o cálculo dos fractais é necessário um input inicial, que pode ser um número aleatório, conhecido como semente. Instalamos no local um conjunto de 8 sensores infravermelhos conectados a um transputer (computador com memória, processador e entradas e saídas de dados) através da leitura do ligado ou desligado dos sensores num determinado período de tempo, escolhia a semente que era enviada ao computador principal para o cálculo.
