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Micro memórias 1

o namorado do Bispo… (Salvador / Bahia 1979 AD)

Na época fazia um Curso de Composição no Festival de Inverno na UFBA Universidade Federal da Bahia, no mitológico Seminário de Música (refundado por Koellreutter) – com Walter SmetakErnst Widmer e  Agnaldo Ribeiro. Ganhei a bolsa após ter estado outras vezes em Salvador na caça do Smetak, (mas esta fica para outra MM). Como dizia, eu, estudante de composição na época com Michel Phillippot e Conrado Silva na UNESP em São Bernardo do Campo, com uma bolsa, de um mês que se estendeu por quase três – e que por pouco não me fez perder o ano na UNESP. Em Salvador estudava durante quase todo o tempo e tocava violão e outros instrumentos de percussão num típico “lounge natureba” no Arroz de Ouro – restaurante macrobiótico (uma espécie de veganismo-dos-anos-70 – Salve Kikushi – ainda vou falar dele aqui) que ficava numa travessinha no Centro, na hora do almoço, a troco dele e dos drinks e para relaxar… Tudo seguia mágico como só Salvador !

…estava morando já por alguns dias em Salvador e conheci – no UCBA União Cultural Brasil Alemanha (dizíamos : União Cultural Bahia Alemanha) que ficava na Av. 7 de Setembro já no planalto da cidade alta – um negro falante, alto, magrelo e bem apessoado, cheio das malandragens típicas bahianas. Fala mansa. Muitos trocadilhos. Amigo e conhecido de vários amigos (do Léo, do Vanderley “escravo da beleza“, da Naná e de Pedro, de Nêgo). Conversamos um bocado, bom falador como eu. Me distraí com outras pessoas e quando voltei ele havia ido embora. Nunca soube seu nome. Quando perguntei para o Nêgo qual o nome do figura, ele me respondeu enigmático : “Ah! o namorado do Bispo! Sei não.”

Alguns muitos dias depois, saindo de casa – numa travessa do Porto da Barra – subindo a ladeira para a cidade alta, logo onde há o precipício para o Mar de um lado e uma montanha pedregosa do outro. Um Sol de fritar miolo.  Olhei na bolsa e achei uma “pontíssima” de um “cabeça-de-nêgo” que me disseram muito forte. Três, quatro tapinhas e eu estava sonhando acordado diante da beleza. Flutuando literalmente em direção à aula!! E era uma caminhada e tanto até o Seminário de Música. De repente pára um fusca branco um pouco à frente, abre a porta, alguém chama pelo nome : Wilsão ! Cheguei até o carro e era ele, o negro do UCBA. E aí ? falei. Quer uma carona ? Ele disse. Vai para a UFBA? Sim, obrigado, respondi. Notei que não tinha o banco da frente, do carona, no fusca. Ao tentar entrar vi que havia um senhor de uns 60 anos sentado em trajes eclesiásticos, gordo, cara de bonachão e ocupando quase todo o banco ! O amigo sem nome me diz : Ô Wilsão, você conhece o Bispo ? 

Sentado ao lado do Bispo fui de carona até em frente à Reitoria – entrada da UFBA – conversando amenidades. Até hoje não sei o nome… nem dele, nem do Bispo.


Perdido em Jerusalém

Micro Memórias 2

…o policial de Jerusalém oriental (Jerusalém 27 Dez 05)

…Fomos convidados, eu e meu parceiro Lívio Tragtenberg, para apresentarmos o clássico “São Paulo, a Symphonia da Metrópole” filme de 1929, P&B, silencioso, que “animávamos” ao vivo : com sons, músicas e outros truques – durante as comemorações do aniversário de 50 anos da Cinemateca de Jerusalém. O contato havia assistido nossa apresentação no Auditório do Museu do Louvre em Paris no ano anterior, durante o Ano do Brasil na França.

A apresentação seria dia 20 de Dezembro e aproveitei para estender minha estada até dia 30 de Dezembro e assim passar o Natal na terra do natal. O Lívio resolveu voltar antes. Andei muito a pé por toda a região, incluindo parte da Palestina – que aliás não existe, diziam. Visitei inúmeras vezes a cidade antiga de Jerusalém – que é fascinante – indo a princípio no Mercado, à Torre de Davi, explorando cada vez mais distante para a parte judia : muro das lamentações, espaços “american-like” lotados de jovens – bem jovens-soldados fortemente armados – depois ainda andei até a parte católica como a Igreja do Santo Sepulcro, as diversas paradas da Crucificação na Via Dolorosa. Por fim, acabei fazendo umas incursões na parte árabe da cidade velha, até a entrada do Domo da Rocha – proibido para não muçulmanos. Fiz o “tour” das muralhas – um percurso de 6 Km e bem perigoso – por sobre as muralhas que cercam a cidade – lindas vistas e alvo fácil para qualquer “sniper”. Os filmes que fiz durante estas caminhadas foram utilizados no projeto 4 Impro-Relâmpagos sobre as pedras de Jerusalém que realizei anos mais tarde no CCJ Centro de Cultura Judaica em São Paulo – a convite do querido Aimar Labaki. Não sou judeu – sou uma mistura vira-lata (como todo brasileiro) de poloneses, italianos, austríacos e ucranianos. Nenhum de origem judaica.

Corta. 

Caminhando tranquilamente na parte árabe da cidade velha, ao redor do meio dia, fotografando e filmando tudo em digital – principalmente meus passos naquelas pedras sem idade – isto é, filmando meu próprio pé. De repente, me dei conta dos arredores, arquitetura de milenar pobreza, umas crianças jogando uma bola improvisada num chão inclinado de pedra, tal improvável campinho. Jovens árabes em roda conversando. Tudo começou a parecer, para mim, algo suspeito e potencialmente perigoso – coisa de “nóia” de cidade grande e perigosa como SP – e aumentando… É uma região em guerra… Pensando em não perder a elegância, fui guardando pertences na mochila e tratando de cair fora dali. Sei, mas para onde? (#nóia). Peguei o mapa e não consegui entender onde estava. Sentar para olhar melhor, nem pensar! (#nóiadidádó). Cada vez mais parecia estar pagando uma de gringo inocente-doido tirando fotos-auto-ostentação na Rocinha ou qualquer outra favela no planeta-favela !! Por mais que as pessoas parecessem e realmente estarem nem aí comigo!  Momento PPP – Pura Paranóia Paulistana !! Pausa. … calma, pensei, seguramente é um bairro popular e nada vai acontecer!! A curiosidade era recíproca e inevitável – já viu um gringo filmando o pé?

Mas, fui andando já um tanto mais apavorado subindo uma viela. Logo no topo dela vi um soldado/policial árabe armado literalmente até os dentes. Colete com 4 pentes de uma automática que trazia a tiracolo, duas pistolas uma de cada lado, num coldre maneiro a altura da barriga. Cheguei sorridente e tasquei : Please officer, do you speak english ? Yes, ele respondeu. Ufa!, pensei. Do you know how can I reach the way to the Jaffa’s gate? perguntei. Where are you from? Ele me perguntou. Brazil ! respondi. Pausa. 

Ao que ele me respondeu em português quase fluente : Pôxa, eu trabalhei na 25 de Março !! 


Artigo Música e Inteligência Artificial – Folha de S.Paulo, caderno Folhetim, 12 de outubro de 1986.

Artigo escrito por Wilson Sukorski em Outubro de 1986 para o Folhetim da Folha de São Paulo.
Artigo escrito por Wilson Sukorski – em Outubro de 1986 para o Folhetim da Folha de São Paulo.

Podcast em entrevista no ChurrasCast com os meninos da CW3 – Papo Longo

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